PORQUE HOJE É SÁBADO - Um Conto Picante (em Capítulos) II
2. Segundo depoimento
extra-oficial. Local: secreto. Objetivo: tirar a limpo alguns detalhes. Para traíra não há piedade?
Segunda parte do conto de Zamora Pepper
_ O desconforto com o sumiço de Kelly Cláudia
permanece. Acordei mais um dia angustiada, com dor dentro de mim. Não é a
solidão que lateja ardendo, este sentimento conheço bem, já me é domesticado, não
é disso que falo não. Tem algo novo... Que
me cheira a podridão fresca. Os ingênuos diriam que é desconforto, por conta do
meu inferno astral e os cruéis apontariam o dedo no meu envelhecimento, a cada
dia, mais velha, menos sexualmente atraente, mais pobre e fodida. Acho que
todos estão certos e eles nem sabem que me encontro aqui na sua frente, já
visando alguns trocados. È necessário ter coragem para enfrentar a vida e vez
ou outra eu tenho, tal qual a dinheiro. Coragem é igual a dinheiro, fundamental
pra sobreviver, mas também pode evaporar. Quando, então se tem é bom dar o valor,
concorda?
_ Que fique claro, porém que é a
coragem que me traz aqui, mas vamos ao que interessa. Há poucos dias atrás,
Chinelo me telefonou. Levei susto com a ligação, de cara pensei que ele queria
o seu dinheiro de volta, depois de ter matado Kelly Cláudia. Não conseguia
deter o meu coração, que disparou. Minhas pernas bambearam e foi preciso me
segurar para não tombar.
_Tudo loucura da minha mente, Chinelo
não mencionou o dinheiro e me disse com voz de putinho que estava se
masturbando e pensando em mim nua e tesuda, me abrindo toda. Era tarde da
noite, me pediu que tomasse um Uber e fosse lá pra Vila Kennedy dar pra ele,
porque queria me penetrar... Expliquei que passava mal e descrevi os sintomas
que me atormentavam naquele momento. Chinelo não deu bola, sussurrava palavras
desconexas de prazer. Esperei com o fone grudado em meu ouvido até que ele
gozasse e já não tremia mais, porém o pulsar do meu coração continuava disparado.
Eu sei que é feio admitir isso, mas o pau deste homem mexe comigo, e acabei naquela
noite me agarrando ao meu cacete de borracha, um vibrador de 25 centímetros que
me salva na hora do aperto... Chinelo descreveu o jato gostoso que saiu da sua
pica, a porra morninha, abundante, concentrada. Não consegui perguntar por Kelly
Cláudia, afinal não era momento para morbidez, com o meu bico do peito arrepiado
e a minha xota encharcada. Ele só desligou o telefone depois de me escutar
prometer-lhe uma visita em breve. Menti. Não tenho a intenção de visitá-lo,
embora a sua piroca grossa não me saia da cabeça, me falta coragem para voltar
lá. Penso muito no corpo dele quente e musculoso, o filho da puta não tem
gordura sobrando, mesmo comendo de tudo tem o corpo todo definido, é magro. Eu
magra? Não... Se como tudo o que gosto viro uma vaca. Diversas vezes escutei
minha mãe me chamar de vaca, e olha que eu nunca fui tão carnuda quanto a Kelly
Cláudia.
_ O fato é que acabei não resistindo,
então ontem telefonei a noitinha pra ele. O moleque de quinze anos atendeu ao
telefone, passou para Chinelo, que me saudou com um “fala gostosa”. Enxotou o moleque de perto dele, pude escutar. Disse
pra ele o motivo da ligação, antes que o assunto descambasse para a putaria.
Foi pra saber sobre Kelly Cláudia que eu o telefonei. Chinelo titubeou e me sacaneou contando
estórias sado masoquistas sobre ela pra me assustar, mas por fim, depois de debochar
bastante de mim, pediu que eu não me preocupasse com a “sua vadia”, porque estava viva e alimentada. Implorei para que me
contasse o desfecho daquela sexta feira, indaguei sobre a churrascada e a custa
de muita insistência minha abriu o bico.
_ Ocorreu o seguinte: depois que Kelly
Cláudia, suarenta e com a maquiagem borrada conseguiu que ele gozasse, Chinelo
afastou a arma da cabeça dela e disparou um tiro para o alto, destruindo bom
pedaço do telhado da sala. Chinelo teve reflexo e pulou logo de lá, mas ela não
se moveu do chão e se machucou. Caíram
pedaços quebrados das telhas atingindo partes do corpo carnudo dela. Mas foi só
isso. Continuou largada no chão no meio do ar empoeirado. Chinelo teve que ir
levantá-la, mas quando a viu sangrando ficou atentado a dar uma surra nela, toda
em trapos e chorosa, mais ainda com certo brilho das lantejoulas. Não bateu
nela porque se deu conta que estava muito bêbado e empoeirado, e teve ainda o
pequeno caquinho da telha que conseguiu se enfiar entre a carne e a unha do pé
dele o desviando da sua gana por porrada. Veja só, às vezes um trocinho miúdo ajuda
no destino da gente.
_O dia mal tinha começado pra ele e
conforme me explicou seria longo, precisou de muito café forte e de banho
gelado para recuperar um pouco da dignidade e depois foi pra rua resolver uns
negócinhos. Decidiu que a surra ficaria para outra hora porque não queria olhar
mais para a cara dela, então teve a idéia de trancá-la por uns dias em um
quarto minúsculo, deixando o moleque de quinze anos responsável por vigiá-la,
além de levar-lhe comida e água. Comida
ele jamais deixaria que faltasse para ela, na nossa bebedeira da sexta feira
Kelly Cláudia se gabou, falando com voz de criança, que Chinelo entupia ela de
comida, dava-lhe até comida na boca, segurando o prato com ela em seu colo e ai
se ela deixasse comida pra trás, tinha que raspar tudinho, se não levava
tapinha na bunda. Neste momento o ar entre eles era de cumplicidade...
_Voltando ao expediente do Chinelo. O
teor do negócinho foi a execução de um garoto traidor, que virou x9. Algo
corriqueiro e perigoso, geralmente dá em morte. Por isso ele como chefe não
deixa passar, colhe provas o suficiente e manda matar sem piedade, só para dar
o bom exemplo, pra estimular a disciplina e a lealdade. Com x9 não há
clemência. Traíragem não dá para tolerar, ninguém tem pena de traíra, não é?
Explicou-me que até há pouco tempo o moleque era considerado sangue bom, mas
deu mole, decepcionou muita gente, se mitificou. Quando se espalhou a noticia
sobre a sentença de morte dele, está justo em dizer que rolou choro escondido. Não
da parte de Chinelo, este deixou há muito tempo de lado o sentimento de piedade
pela morte de alguém. A única morte que
atingiu o seu coração foi a da mãe, que se lembra como se fosse ontem. Marcou
ele pra sempre o fazendo odiar o uniforme da polícia. Em Vila Kennedy escuta-se
em todo canto, estórias de como é valente, nem todas desagradáveis. Descobri
andando por lá que a frieza concentrada dele inspira confiança e muito por
conta disso, segura a invejada posição de chefe no tráfico de drogas e de armas,
e já se vão mais de dois anos liderando esse bando de jovens destemidos. O povo
sussurra entre si, que Chinelo tem poderes de outro mundo.
_O ritual da morte do garoto foi
transformado em acontecimento. Claro, filmaram tudo. Você gostaria de ver este
vídeo? Já viu coisas piores no facebook, é nisto que está pensando?
_Quer saber como foi? Espero que se
choque. Primeiro o amarraram a um poste de madeira e o forçaram a comer muita
maconha, pelo menos cem gramas da erva requentada ele teve que engolir. Tudo a
seco, mastigando nem tão devagar os punhados que enfiavam pela boca. Quando o
garoto acabou, soltaram fogos de artifício, alguma boa alma lembrou-se da
secura na boca após o consumo da erva, e então lhe derramaram pela garganta
litros de Catuaba Selvagem, Fogo Paulista, Rabo de Galo e cachaça produzida por
eles mesmos, de péssima qualidade. Passada algumas horas o garoto tinha seu
corpo largado e amolecido, parecia um boneco de pano, com os olhos semicerrados.
Soltaram uma salva de doze foguetes, então em meio a gritos selvagens alguém
teve a idéia de crucificá-lo, da mesma forma como os Romanos fizeram com Jesus.
_ A idéia atiçou o bando, cheio de
evangélico que carrega a arma e a bíblia na mão. Em meio aos escombros um dos
evangélicos achou duas grossas madeiras, suficiente para a cruz. Outro
encontrou pregos grandes e enferrujados e também logo apareceram diversos tipos
de cordas. A cruz não demorou a ficar pronta. Com algazarra desamarraram o
garoto do poste, e o colocaram rente a cruz. Esticaram os braços inertes dele e
ataram seus pulsos à madeira com pedaço de corda. O garoto não reagiu,
continuou com os olhos semicerrados e esboçou algum sorriso imbecializado que
alguém rapidamente interpretou como sinal positivo, de que ele curtia aquilo,
sinal de arrependimento da traição, só que tarde demais. Estourou-se outra leva
de foguetes. Riram alto, se
escangalhavam de rir quando um deles mais impaciente desferiu a primeira
martelada com o prego posicionado no meio da mão direita. O urro de dor foi longe, esperavam ansiosos
por este som orgânico, primitivo. Aplaudiram. Enfiaram mais cachaça pela boca
dele, e continuaram o pregando na cruz e escutando os seus gritos desesperados
de dor. O sangue escorria, por suas pernas e braços, mas não vinha nada da
cabeça, então Chinelo sentiu falta da coroa de espinhos. Providenciaram.
Circularam com o crucificado pelas ruas de Vila Kennedy. Escutava-se ora salva
de palmas, e tiros para o alto, ora grunhidos de terror e suplícios de gente
tiranizada, massacrada e sofrida. E ainda houve gente que achou que Jesus
estivesse voltado. Teve família inteira ajoelhada na varanda louvando o retorno
do Misericordioso.
_ Acabou o rolezinho. Pararam em um
dos poucos terrenos baldios que resta na comunidade, onde o bando acendeu enorme
fogueira. Precisou-se de três garotos mirrados para se fincar a cruz no meio do
fogaréu ardente. Para os três mirrados as
queimaduras alcançadas com a façanha tornaram-se medalhas de honra, com elas
asseguraram um passo acima na hierarquia da organização.
_Assou por horas a fio, aquele que um
dia foi sangue bom, e com o dia já amanhecendo e boa parte da carne chamuscada,
iniciou-se o banquete. O primeiro a ser
servido foi o Chinelo. Não sei se chegou
a levar pedaços de carne para Kelly Cláudia, mas é possível que não. Sorte dela
que naquele dia, graças à raiva do Chinelo não recebeu comidinha na boca.
_Paro por aqui delegado. Não aprecio
canibalismo, mas tão pouco quero ser confundida com x9, por favor, isso deve
ficar muito claro pra todo mundo. Não nego a necessidade desse dinheirinho que
o senhor tem me dado, é vital para eu manter as contas em dia e o meu nome
graças a Deus, longe do SPC. Sou grata, porém estou aqui para salvar a honra da
minha amiga Kelly Cláudia. Jamais poderemos nos esquecer disso. Obrigada, espero
que para ti, nada nunca falte e que o firmamento te facilite a vida. Anote aí o
meu novo número de telefone: (024) 9 9268-0630. Pode me chamar pelo Zapzap, que
eu te atendo.


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